Minha Irmã

Na lentidão do tempo recordo
Tento escrever
Quero pensar
Por um instante quero crer
Crer minha irmã, que realmente existo
E posso correr livre no prado
Sem que deixes de chamar meu nome
Quero crer minha irmã
Que tudo vive como dantes
E que há gestos, sorrisos ao meu lado
Quero crer minha irmã
Meu vento cativo no tempo
Minha amiga separada, mas mais unida
Meu cardo, espinho de dor
Quero crer
Que já não há dor esfaqueando o seio
Nem gritos no meu riso
Que ninguém conhece!
Quero crer
Que ainda existe algo oculto que me prende
Algo mais que esta tristeza
Que me apunhala
E este meu choro disfarçado em sorrisos
Ainda que esse algo sejas tu
Minha irmã
Quero crer, sem poder crer
Que não perdi a razão de sonhar
Para baixinho rezar uma oração
E sorrindo te chamar sempre
Minha irmã!

Madalena Valente
1974

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