Outono da minha vida





   Respiro um ar puro, um ar que cheira a sol, acordado há pouco. Uma aragem fresca que agita as árvores adverte-me que afinal já não estamos no verão. No entanto prefiro assim. É como se algo em mim desabrochasse ao mesmo tempo que as flores, no jardim. 

   Agora lembrei-me que é precisamente na Primavera que tudo renasce e renova, como se por milagre tudo acordasse, bem disposto, ao mesmo tempo. Tudo parece mais leve, mais verde.

   E as águas, ah! as águas a correr em sobressaltos, por entre as pedras do seu percurso, fazendo lembrar gargalhadas de crianças que, em seu ar descuidado, avançam mesmo que aos tropeções. 

   Neste momento também eu me sinto criança! É como se de repente o meu coração se estreitasse e por isso batesse mais depressa, num compasso alegre, cheio de sons novos, que nem mesmo eu sei onde os vou buscar. Sons vindos talvez de mundos distantes que habitei noutras vidas ou terá sido tudo uma ilusão?

   Ocorre-me agora que estamos no Outono e que uma chuva miudinha cai de mansinho no telhado, ao fundo o sino da igreja chama à oração e eu visto-me de folhas secas e amarelas tingidas pelo tempo, com um cheiro forte a musgo, que lembra o manto da terra que se prepara para o Inverno da Vida.
Madalena Valente

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