FILHO ÉS PAI SERÁS!
Há
muitos anos atrás, numa terra distante, havia uma tribo que tinha por tradição abandonar os pais, quando estes, após uma determinada idade, já não podiam trabalhar e contribuir para a comunidade,
sendo apenas um estorvo para os filhos. Carregavam-nos então para um
lugar afastado da sua aldeia, cujo nome era “O Monte da Morte” onde os filhos
deixavam os velhos pais, à sua sorte, até que estes morressem de fome, de frio
ou devorados pelos animais selvagens.
Numa
certa família, havia então chegado a hora de ser aplicada essa tradição, pois o velho pai tinha acabado de completar oitenta anos, e as forças já há
muito tinham abandonado o seu debilitado corpo, impedindo-o de trabalhar para
ajudar os filhos. Coube então ao filho
mais novo, um homem dos seus quarenta anos de idade, dar cumprimento a essa
cruel tradição. Mal raiou o sol o homem, que também já era pai de um rapaz, de
nove anos, levantou-se e correu a despertar o filho para este o ajudar
a levar o avô para o monte e, assim lhe ensinar também os preceitos desta
tradição. Como tinha bom coração preparou, com a ajuda do filho, um farnel com
alguns alimentos e água, para que o ancião não sofresse de imediato as agruras
da fome e da sede. Juntou também uma manta de lã, pois lembrou-se que o inverno
estava a chegar e as noites eram frias. Acordou, de seguida, o velho pai e logo se
puseram a caminho, pois a viagem iria ser longa, dado a vagareza do andar do idoso, pelo menos três dias até chegarem ao monte da morte, onde aí o velho pai seria
abandonado à sua sorte até morrer.
Ao
chegarem ao local, o filho com a tristeza marcada no rosto entregou ao pai,
como era tradição o farnel com pão, fruta e água para três dias e uma manta
para se proteger do sol durante o dia e do frio durante a noite.
Antes
de se retirar quando se foi despedir do velho pai, aconchegando-o com a
manta, o seu filho chamou-o e disse-lhe:
-
Ó pai não tens por aí uma faca? – e o homem surpreendido com a pergunta do
rapaz, respondeu:
-
Tenho, mas para que é que a queres?
-
Pois então dá-ma, para eu cortar a manta ao meio e, assim quando for a vez de
te trazer para o monte, já não preciso de gastar dinheiro com uma manta nova,
pois já tenho a metade desta!
Nessa
altura e sem se aperceber, o homem deixou rolar pelo seu rosto uma lágrima, pois
finalmente tinha conseguido vislumbrar o seu futuro nas palavras do filho.
Ele entendeu que também seria vítima daquela tradição e, que um dia também o seu
filho teria o dever de cumprir aquele penoso ato de o levar até ao “monte
da morte”.
Foi
então que, em soluços, pediu perdão ao seu velho pai, por querer seguir tão insensata
e injusta tradição e, voltando-se para o filho disse em tom solene:
-
Pois então acaba aqui hoje esta tradição que leva os filhos a abandonar os pais,
depois de tudo o que estes fizeram para os criar! – o rapaz também comovido
abraçou o pai e o avô e respondeu:
-
Ainda bem, meu pai que tomaste essa decisão pois também a mim me iria custar
abandonar-te aqui um dia, como se fosses um farrapo velho, sem valor que se deita
fora sem pensar!
Pai
e filho levantaram o ancião e carregando-o com carinho, nos seus braços,
trouxeram-no de novo para casa, cuidando dele até ao dia da sua morte.
Reza
a lenda que a partir de então, nunca mais foi cumprida essa tradição.
Para lembrá-la ficou o provérbio:
“Filho és Pai serás. Assim como fizeres assim acharás!”
Porém,
hoje em dia é com indignação, que observo de novo esta lamentável conduta. Substitui-se
o nome do “Monte da Morte” para hospital,
asilo, lar de 3ª idade ou muitas vezes a própria casa, onde os filhos, por
negligência humana, se esquecem de visitar os pais idosos e de dar-lhes a devida atenção,
mais que não fosse como agradecimento, por tudo o que deles receberam ao longo
da vida.
Eu
sei que há pais e pais, mas nem os animais merecem ser tratados como o são
alguns idosos, abandonados nos lares ou em casa. Por isso, mesmo não querendo
fazer das palavras de Jesus Cristo tábua rasa, não deveremos também perdoar os
erros daqueles que nos deram a vida? Por vezes é fácil julgar, mas todos nós
sabemos como é difícil desempenhar a paternidade ou maternidade, exemplarmente,
sem erros, quando por vezes a miséria material, mental e social estão de mãos
dadas com esta missão.
Também
já ouvi da boca de apelidados bons e ricos filhos, justificações vazias de
sentimentos, apregoando que é para o bem dos pais que os levam para os lares.
Porque lá têm melhores cuidados que teriam em casa. Porque lá têm gente
especializada para tratarem deles. Porque lá convivem com outras pessoas da sua
geração. E muitas outras desculpas que mais não servem, senão para lhes
aliviarem a consciência. Como se as desculpas fossem anular o seu veredicto no
futuro, abandoná-los à sua sorte, que melhor será dizer no “Monte da
Morte”, para não darem trabalho, preocupações e despesa. Mas será que esses filhos alguma vez se
lembraram de perguntar aos pais o que eles realmente queriam. Ou será que com o
avançar da idade eles perderam o direito de opinar em relação a sua própria
vida?
É com certeza a solução mais fácil, mas não a melhor!
Por
isso também hoje se despejam os filhos, ainda de meses nos infantários, creches
e depois escolas por razões de trabalho, de dinheiro, de carreira… e o
acompanhamento, o carinho, a atenção, para com esses seres, que não pediram para
nascer, mas vieram porque assim o decidimos, fica deixada ao Deus dará, levando
aos comportamentos mais disruptivos que até à data eram tidos como raros. Filhos
que desrespeitam e maltratam pais, professores, idosos e por aí a diante. Os valores estão a ficar fora de moda e, lamentavelmente para muitos, a
tradição do abandono que deu origem a este conto ser-lhes-à aplicada, no futuro,
pelos seus próprios filhos. Parafraseando o velho ditado que diz:
“Filho
és Pai serás. Assim como fizeres assim acharás!”
Não
quero ser falaciosa, mas parece-me que, no meu tempo, os idosos eram tratados
com mais deferência. Será impressão ou tínhamos pelos nossos avós um respeito
que já não existe?Aprendíamos na escola a dar-lhes importância. Os nossos livros de leitura
apresentavam contos, parábolas e fábulas que nos inculcavam valores, sendo o respeito
pelos mais velhos um deles. Em casa eram muitas vezes os avós que
ajudavam a criar os netos, que lhes contavam histórias e lhes adoçavam a boca.
Mas hoje, a ganância das sociedades materialistas que obrigam homens e mulheres a trabalhar até depois dos sessenta anos, difícil se torna também ter
estes avós em casa, já que também eles estão a trabalhar! E, quando se reformam,
já não têm serventia e tornam-se um estorvo para os filhos.
A sociedade mudou tanto que apetece dizer:- Afinal para que serviu o 25 de Abril?
Se deu liberdade, tirou os valores tradicionais que tanto presávamos e que eram transversais a todas as classes sociais!Até os mais pobres sabiam ser educados e davam valor à educação, ao trabalho, à honra, ao respeito pelos mais velhos, pelos pais, pelos professores e pelos preceitos mais básicos que fazem de nós seres civilizados e não “Bárbaros”, sem eira nem beira… Lamento então ter que dizer, cada vez mais:
A sociedade mudou tanto que apetece dizer:- Afinal para que serviu o 25 de Abril?
Se deu liberdade, tirou os valores tradicionais que tanto presávamos e que eram transversais a todas as classes sociais!Até os mais pobres sabiam ser educados e davam valor à educação, ao trabalho, à honra, ao respeito pelos mais velhos, pelos pais, pelos professores e pelos preceitos mais básicos que fazem de nós seres civilizados e não “Bárbaros”, sem eira nem beira… Lamento então ter que dizer, cada vez mais:
-
Que saudades eu tenho do meu tempo, do tempo em que havia valores!
Madalena Valente

Ainda os há,estão é muito dispersos.
ResponderEliminarE têm medo de falar, pois são logo apelidados de antiquados e outras coisas! Enfim que pelo menos esses poucos continuem a fazer ouvir as suas vozes e não desistam!
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