De Mãos Dadas Contigo




Um dia, no infinito do tempo, se eu pudesse  gostava de ir passear contigo, talvez quem sabe, ao reino da fantasia, onde grandes e pequenos, novos e velhos se transformam em iguais! Iguais em beleza, em generosidade, em simpatia e amor! Sim porque essas são as qualidades que mais depressa nos lembramos e também as que mais depressa deixamos fugir!

Porquê a razão deste meu desejo? Porque me sinto feia? Porque me sinto antipática? Porque me tornei velha e rabugenta, para com aqueles que me rodeiam? Ou talvez apenas, porque me tornei azeda e vazia de amor? 

Não, Não é nada disso!  

O tempo passou e eu, não sei bem porquê continuo igual a mim mesma, aquela que vejo por dentro, desde o dia em que nasci e abri os olhos para o Mundo. 

Bonita, sim continuo bonita, mas naquele sentido em que nos perdemos num sorriso quente, num afago de palavras soltas, caídas num regaço de mãe onde, com a minha varinha de condão, eu  pararia o tempo  para  puder continuar a cantar para ti,minha filha, canções de embalar, com voz doce, para  os teus sonhos realizar!

Mas inevitavelmente o tempo passou por mim, e com ele os seus novelos, carregados de nós para desatar, e eu que sempre sorrira para a vida comecei a tecer um véu de penumbra, feito de tristezas, desânimo e cepticismo. 

Simpática, será que ainda o sou, aos olhos dos outros?
Simpatia, sim é a palavra que melhor define alguém como eu, que não sendo propriamente bela, se torna agradável de ver, como se os olhos dos outros recaíssem sobre mim, que nem máquina fotográfica que capta o melhor de nós, o nosso lado do sol e nos enlaça num raio dourado, fazendo de nós sereias, em mar de prata, espelhadas. 

Nova? - Sim. Mas por dentro, onde o meu coraçãozinho estremece a cada sorriso de criança, a cada sonho de um futuro melhor! Ainda continuo a acreditar no amor e na paz no mundo! 
Ainda olho o azul do céu, o profundo do mar e os castanhos quentes da terra, a cheirar a vida, que se renova todos os dias, como se fora a primeira vez. 
Ainda me rejubilo de alegrias feitas de agradecimento por tamanho milagre, este da natureza Mãe. 
Não, não existe velhice para quem se sente inflamar, todos os dias, na esperança de  ver concretizar ideais próprios da juventude: Paz e Amor sem guerras, sem descriminações ou atavios rançosos, de tão antigos que são, para quererem persistir nos dias de hoje, nesta nova Era de Comunicação, Globalização e Fraternidade!

Doce e cheia de amor para dar, um amor maduro, que procura o companheirismo, a ternura do afago, o eterno enamoramento do  olhar. 

"A vida deu-me limões e eu com eles fiz limonada" este dito é muito antigo, mas para mim serve-me que nem uma luva! Nunca desisti, nem baixei os braços, as minhas lágrimas e arrependimentos tornaram-se força e mote para continuar, para corrigir, para me tornar melhor! Quando me diziam:- Não! - eu respondia: - E porque não! e logo de seguida dava tudo por tudo, por fazer a diferença, por me dar por inteiro e recomeçar de novo! 

Ah! Quem disse que a vida é fácil de se viver, que é só deixar que ela se desenrole e seguir a corrente, deixando que esta nos leve à deriva,que nem fatalismo de destino ou karma?
Engano este, e o mais importante e o que se devia logo  ensinar aos nossos filhos, quando estes nascem, é que somos nós os timoneiros da vida e que tudo tem um propósito e uma consequência! 

Não se planta urtigas quando queremos colher flores de macias e doces pétalas. Mas também se erramos ao escolher a terra ou as sementes, não baixemos os braços, façamos dessa derrota uma vitória, uma lição e sigamos adiante mais fortes, mais sabedores. 

A vida é uma estrada que se percorre seguindo em frente ou perdendo-nos em atalhos coloridos ou sombrios, mas nem por isso menos interessantes. Se não fossem os atalhos onde se escreveria a poesia e a música, onde nos perderíamos a contemplar o arco-íris e a ouvir o eco dos nossos gritos, na imensidão das montanhas?

Felizes daqueles que se perderam nos meandros da vida, pois como se diz também, Deus escreve direito por linhas tortas e nós homens não somos senão mais do que um reflexo vivo desse Deus!  

Feliz sou eu, que fiz de cada dia um hino à vida e àquela estrela que já tão bem alcancei e a trago diluída no meu sangue!



Madalena Valente (dedicado à  minha filha Cristina)
2016

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