O Homem que quer afiar o machado
Esta história que vos vou contar hoje tem a ver com a hipocrisia e as falsas palavras de amabilidade que certas pessoas usam para nos comprar a atenção e simpatia. Ela serve de lição aos mais novos e aos ingénuos incautos. É uma história muito antiga que me foi contada pelo meu avô materno, na sua sabedoria de homem vivido e viajado, que lutou na Primeira Guerra Mundial.
Há muitos anos atrás, no tempo em que ainda não havia eletricidade e tudo era feito à mão, vivia numa aldeia um rapazinho, de pouca idade, cujo pai era amolador de facas e machados. Numa fria manhã de Inverno, estava ele sentado à soleira da sua porta e veio ter com ele um homem que segurava, nas mãos um reluzente machado, ainda por afiar. O homem em falas mansas perguntou ao rapaz:
- Meu querido rapazinho, não terá, por acaso, o teu pai uma pedra ou roda de afiar?
- Tem sim, meu senhor - apressou-se o rapaz em responder.
- Como tu és bonito e forte, deves ser o rapaz mais bonito aqui da aldeia! Mas olha já agora será que me deixas entrar para eu puder afiar o meu machado?
- Concerteza, meu senhor. A roda de afiar está já aqui na oficina do meu pai. - Aquilo de lhe dizer que era o rapaz mais bonito da aldeia, tocou-lhe o coração e encheu-o de vaidade, a ponto de lhe fazer, de imediato, todas as vontades.
- Obrigado, meu pequeno - exclamou o homem, batendo-lhe no ombro com ternura.
- E não terás por aí um pouco de água quente?
- Trago-a já, meu senhor! - Como poderia ele recusá-la a um homem tão amável!...
- Que idade tens tu e como te chamas? - E o homem sem esperar pela resposta continuou:
- Pareces-me um rapazinho bem educado, o mais simpático de todos aqueles que eu já conheci até hoje! Eu não queria abusar, mas será que podes dar à roda só por alguns minutos enquanto eu bebo a água?
Como poderia o rapaz negar-lhe o favor, pois eram tantos os elogios que este lhe havia feito! Pôs-se, então, a trabalhar com todo o afinco, dando tantas voltas que ao fim de alguns minutos já lhe doíam os braços e as pernas e mal se podia mexer. Aquilo, na sua tenra idade, era um verdadeiro suplício...e os minutos pareceram-lhe longas horas. É que o machado era novo, novo em folha e pesado. Cansado e todo suado só a muito custo conseguiu finalmente chegar ao fim do trabalho de afiar o machado.
Assim que viu o seu machado bem afiado, o homem agora já sem o seu ar amável, virou-se de rompão para o rapaz e gritou-lhe em voz de censura:
- Pronto, meu rapazola. Já te divertiste o bastante. Agora, toca a marchar para a escola. - e sem mais dizer, pôs-se a caminho, de machado ao ombro, sem uma palavra sequer de agradecimento. Esta cena ficou gravada na alma deste rapaz para sempre.
Mais tarde, já homem feito, cada vez que via um comerciante, todo cheio de amabilidades, trazendo-lhe todos os tecidos, mais caros da loja, para cima do balcão, elogiando a sua figura e prometendo vender-lhe quase tudo de graça, ele parava para pensar:
- Este homem tem o seu machado por afiar! O melhor é ir procurar noutro lado, onde não me vendam gato por lebre e saia da loja a correr.
Depois de ouvir esta história contada na família de geração em geração também eu quando vejo qualquer homem que procura enganar o povo, com falinhas mansas de promessas de liberdade e fartura, penso cá para mim:
- Cuidado este homem quer afiar o seu machado!...
Também quando, ainda hoje, me deparo com algum homem ou mulher, que colocado em altos cargos e com manias de importância desmedida, mas sem as qualidades e valores necessários a tal função, dá-me logo vontade de gritar:
- Infeliz povo...condenaste-te a servir um homem que tem seu machado por afiar!
Mas a verdadeira moral a tirar desta história, dizia-me o meu avô, não é deixarmos de ser educados e prestáveis para com os outros, mas sim que sejamos educados e prestáveis, sem nos deixar levar por elogios ou promessas feitas, cumprindo apenas o nosso dever cívico e de ética moral.
Madalena Valente

Vai guardando o espólio, já te disse.
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